quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Estendal Colorido

Há roupa estendida em todo o lado. As mulheres africanas lutam contra este tempo do cacimbo - estação seca - para lavarem a roupa e conseguirem que ela seque com esta humidade. 

Hoje estão 25ºC e 57% de humidade. Não é muita, mas é o suficiente para a roupa ter de ficar estendida um dia e meio, ou dois ou três dependendo da peça.

O Desespero da Empregada

Muita gente, muita roupa. 
Há aqui muitos portugueses. Logo há muita roupa.

A São, a africana que limpa a casa, vê-se grega para dar vazão a tanta roupa:
Lençóis, toalhas de mesa, toalhas de banho, cuecas, meias, camisas, t-shirts, calças de ganga…

Tudo a secar num estendal interior que até já partiu uma vareta com o peso.

Ela faz uma ginástica imensa. Estende tudo em todo o lado. Enquanto isso, resmunga. Quer mais um estendal. As pessoas são mais, e o estendal é só um.

Cá fora, enquanto escrevo na varanda, aprecio a roupa branca e colorida que me rodeia por todo o lado. Desde o corrimão às costas das cadeiras, nada escapa às técnicas da São. Não fossem as diferenças culturais e isto assemelhar-se-ia à aldeia da roupa branca.

As mulheres são de facto versáteis. Olho as casas em volta e apercebo-me que todas têm o mesmo desafio. Roupa estendida em cordas improvisadas, umas a seguir as outras, algumas na diagonal, num autentico desafio ao sol que quase nunca se mostra por aqui nesta época.

Casas e casas, cordas e cordas. Imensa roupa e imensa cor que pinta a rua e a enriquece, no meio de árvores e de verde. Mas para mim ganha o estendal da vizinha com um bebé recém-nascido, cujas roupas pequeninas são no mínimo uma delícia visual. As calcinhas e camisolinhas dele, junto das fraldas e lençóis tudo em miniatura ao lado das minúsculas meias, contribuem para o meu voto. Para mim a vizinha do bebe devia ganhar um prémio, pelo desafio de ser mulher e de ter bebés pequenos nesta terra vermelha, de pó, na época do cacimbo!

Vale-nos o sol que procura aparecer por entre as nuvens e insiste em aquecer a rua. Os pássaros cantam-lhe em agradecimento enquanto voam de árvore em árvore. 

Até a casa em frente à nossa, pintada de amarelo reluz mais ao sol em forma de imitação e tudo na rua se transforma numa beleza indescritível.