sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Descida a África


Os risos das crianças pequenas nas brincadeiras de rua, o choro do bebe recém-nascido da vizinha, que a avó consola num longo embalo cantado, sentada numa cadeira de jardim, as manas pequenas que se lavam uma à outra num alguidar, enquanto os pássaros, numa tremenda gritaria e voo indeciso, escolhem o seu abrigo para esta noite, e os aparecimentos surpresa da Fiéri recordam-me aquela tarde dos meus cinco anos, em que fui com a avó Maria tirar fotografias à Estefânia, a casa do Filipe, o padrinho do paizinho, José Fernando.

No pátio, ouviam-se os risos gargalhados dos meninos africanos que corriam, a fugirem uns dos outros, brincando descalços, enquanto as suas mães moíam a farinha de mandioca no pilão, entre cânticos, gritados à vez por cada uma delas, algumas com os bebes às costas, e enquanto a minha avó Maria lavava a loiça do almoço na cozinha, eu só pensava em brincar.

Queriam que passasse a tarde a brincar na salinha de estar, com o sofá grande onde aguardavam que eu adormecesse, sem fazer milhares de perguntas, como costumava fazer diariamente.

O cadeirão em pele castanha, ao lado do candeeiro de pé alto com um abajur de cor bege, às pregas, com farripas penduradas, e uma enorme estante carregada de livros, outra com vários jogos de mesa: damas, cartas, dominó e xadrez iguais aos do meu avozinho, ambas com portas de vidro fechadas a chaves douradas. Pendurado na parede, um quadro grande com dois senhores a jogarem às cartas. No canto, junto à janela, uma mesa redonda com uma toalha rosa-velho a segurar apenas um candeeiro de porcelana. No tecto, o candeeiro de cristais, expandia a luz do Sol projectada pela janela, e invadia a sala de milhares de cores lindas, muito mais do que o estojo de canetas que o meu pai me trouxera da Suíça, que se espelhavam em todo o lado, nos vidros, nas paredes, fazendo efeitos mágicos naquele espaço e na minha memória.

Os meus brinquedos espalhados no chão, eu sentada num felpudo tapete em forma de animal, o cobertor estendido no sofá à minha espera e eu sem sono, ouvia a minha avó desabafar com a madrinha que eu não dormia a sesta e que não sabia o que me fazer. “Mas ela dorme de noite, não dorme?” E a resposta positiva da avó descansou a madrinha que respondeu “Então não te preocupes. Deixa-a brincar. Há crianças que têm mais energia que outras.”

Eu queria brincar, mas não sozinha.

Até que um dos gatos do pátio apareceu na porta da sala e esfregando-se languido na ombreira, miou-me num quase convite para o seguir.

Lembro-me tão bem de ouvir os gritos das crianças desde a cozinha e de a medo me debruçar pelo parapeito para as espiar. Lembro-me tão bem de ter medo de uma cultura bem diferente, e para mim ainda desconhecida. Enquanto o gato descia a África, lembro-me de ter ficado ali parada, um bom tempo a observá-los, as diferenças, os braços de cor mais escura que os meus, eles vestindo apenas calções e elas uns leves vestidos, como eu trazia, corriam descalços como se estivessem na praia.

Lembro-me tão bem de, no momento da decisão, descalçar os sapatos, de encher o peito de coragem em vez de ar e, de um a um, atrever-me a descer cada degrau daquela imensa escadaria, e enquanto os gritos das mães e dos meninos ecoavam por todo o pátio, o meu coração vibrava.

Lembro-me que valeu a pena. Fui aceite nas brincadeiras e mesmo sem terem nada de especial para brincar, lembro-me que foi muito divertido.

Foi a primeira vez que desci a África.

Eu sinto-me aqui agora como se já cá tivesse estado dessa primeira vez.