quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Menina Que Não é de Shoppings


Na verdade não sou de shoppings nem no meu país nem em nenhum lugar do mundo. Pode até ser o melhor shopping de Luanda, que para mim é igual ao Babilónia da Amadora.

Visitei quatro vezes o Belashopping, três delas para bebermos café no SóPeso num quiosque exterior com uma esplanada. E doutra vez, aguardei que terminasse a reunião do Pedro para ter boleia para casa, e confesso que devorei ‘A Confissão da Leoa’ de Mia Couto até ao fim, numa tarde, sentada como que numa biblioteca barulhenta. Mais livros houvesse trazido, mais livros teria lido.

Não sou miúda de shoppings coisíssima nenhuma!

Mil vezes ficar em casa a escrever, a ler, a fazer sudokus, a ver o gato dos telhados dormir deleitado, enquanto o galo confuso cacareja, a ver a Fiéri caçar moscas ou a trepar os troncos das árvores do nosso pátio num ataque a quatro patas, a observar pela janela do quarto as crianças pequenas brincarem em cima de um carro velho, sem rodas, num pequeno descampado, cercado por um muro enquanto, no pátio da casa ao lado, o mano mais pequeno, num voto de confiança total, deixa o mais velho cortar-lhe o cabelo cuidadosamente com uma gillette.

Prefiro passear de chinelas pelas ruas de terra batida do Bairro, a ver as novas casas de betão que vão surgindo entre os muros, as zungeiras sentadas nas esquinas às sombras a aguardarem a passagem de clientes com as bananas num alguidar e os ananases noutro e a imaginar as minhas próximas histórias, do que num Centro Comercial.

A hora de almoço ontem passou a correr, mas vale sempre a pena fazer um passeio a pé pelo Bairro com a Paula.

Passamos pelas zungeiras com couve repolho e eu fiquei a observar atentamente a negociata da Paula. “Quanto custa?” “400” responde a zungeira, e no desinteresse da Paula que retoma a marcha ela baixa para “300”, como a Paula continua a andar, ela dispara novo preço e só vejo a Paula voltar atrás, “quanto disseste?” 250 Kz foi o preço final. A Paula agarra numa couve, e diz “esta não. Deixa-me ver aquela”. “Limpa-me isto tudo. Tem as folhas todas velhas.” Enquanto isso um chinês aproximou-se e fez a mesma pergunta sobre a couve. E a zungeira fez igual negócio. Começou com 400, baixou para 300, e depois 250 Kz. Mas o chinês não levou a couve nem assim àquele preço de mais ou menos 2,5€. A zungeira argumentou indignada “então?! queres oferecido?!”

A Paula recebeu 50 Kz de troco e trouxe com ela uma couve repolho, renovada, verde clara, jeitosa. O esperto do chinês desconfio que voltou mais tarde, e que ainda deve ter conseguido um desconto.

Hoje aprendi a negociar a compra de couves com a Paula… e com o chinês!

Regressei a casa. Almocei e fui lavar estes pequenos pés que ultimamente andam a fugir para os chinelos.

Quando vou a shoppings não tenho de lavar os pés, como aqui no Bairro quando se regressa da rua.

Acreditem, começo a sentir que a vida com pó nos pés é muito mais bem vivida!