segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Borboleta Sem Asas


Tinham-nos avisado que o limpa pára-brisas do nosso carro devia ter bastante água na aproximação a Ndalatando, na viagem às quedas de água, por causa de uma espécie de praga de borboletas.

Na ida, fomos recebidos por um bando de borboletas de cor pérola, lindíssimas, que a juntar às outras experiências da viagem, queriam fazer-nos acreditar que estávamos a viver uma utopia. 

No regresso a casa, surgiram borboletas diferentes, de cor castanha e cobre, muito maiores, igualmente lindas, mas mais aventureiras. Uma bateu-nos com força no pára-brisas, vinda de surpresa, o que nos deixou tristes. Não queríamos matar nenhuma. Muito menos ficar a vê-la durante toda a viagem!

Quando parámos o carro, porém, a borboleta mexeu-se e a esperança de a recuperar também. Era muito difícil mas agarrei nas asas com o máximo cuidado que se pode ter perante aquela fragilidade e retirei-a de lá. Fiquei a segurá-la na mão, a aguardar sinais de vida, enquanto metade da minha sande do almoço, entretanto interrompido, ficara no assento esquecida, eu olhava a mão. 

A borboleta tentava voar, batendo as asas freneticamente, com vontade de viver, mas sem grandes possibilidades. Tinha coragem, mas não tinha forças. 

Fiquei a observá-la enquanto aguardava que o Pedro abastecesse para, na próxima oportunidade, poder devolvê-la à natureza, a quem pertence.

Bateu-me no vidro uma mulher jovem. Chamou-me mulata e pediu-me a sande que viu no meu assento. De forma directa disse-me “eu tenho fome e tu tens aí isso, podias dar-me!”

Não sei explicar porquê mas não me mexi. Não sei se por causa da forma directa e objectiva com que ela se dirigiu a mim, se por causa da fragilidade da borboleta e da minha, não me mexi.

Hoje não me apeteceu jantar… Fui para a cama… Caiu uma lágrima.

Nem sempre podemos voltar atrás para corrigir uma reacção. Fiz o que devia ter feito no caso da borboleta… mas quando olhei de novo para o lado, a mulher já lá não estava. Não posso deixar de partilhar a tristeza, a frustração, por não ter agido imediatamente para matar a fome, como para ajudar uma borboleta que o mais provável é não ter sobrevivido. 

Eu podia ter ficado sem o resto da sande o resto da tarde… será que ela conseguiu almoçar? E será que alguém a vai ajudar amanhã? 

Enquanto a borboleta cabia na minha mão… isto já não cabe.
 
Fazer alguma coisa em África, não é fazer o suficiente. Num continente com tantos recursos naturais, com tanta possibilidade de auto-subsistência, riquezas como petróleo, ouro e diamantes… porém com tanta ganância humana!

Num mundo com a capacidade de matar a fome a todos os seus habitantes e com todos os recursos para isso… sinto-me como a borboleta, com coragem, mas sem forças.

Quero voar, mas parece que… não tenho asas.