- Meninas, vamos às compras?
A Paula de vez em quando tinha umas ideias assim. E lá me convenceu a mim e à Sandra a irmos à loja nova de Morro Bento.
Só que, chegar até ao fim da rua era duro porque era longe e estava imenso calor.
Ainda começámos o trajecto, mas rapidamente a Paula levantou o braço e depois explicou-nos:
- Vou pedir boleia a este Kandongueiro.
Fiquei aterrorizada. Quem não sabe, os kandongueiros são os doidos dos taxistas (ou do melhor que se parece), que transportam as pessoas em Luanda e na periferia, quase todas zungueiras, com tudo o que vendem: bananas, ananases, repolhos, animais vivos, cadernos e livros... bugigangas e os filhinhos delas, às costas.
Numa Hiace onde caberiam normalmente 9 pessoas, conseguem amontoar-se 15 ou 20, à pinha, junto com os alguidares carregados.

A maioria das carrinhas anda com os vidros partidos, especialmente o pára-brisas rachado, e todos amolgados, com buracos de balas, sem pára-choques e outros itens... enfim cada carro é um modelo original, com pelo menos 20 anos de idade, com bancos de cores diferentes, isto é, quando ainda tem estofos.
A juntar a cor azul e branca, mensagens
no vidro traseiro do mais curioso que possa existir: de teor político, religioso ou anúncios de venda ou de aluguer de casas.
Por isso, enquanto a Paula acenava ao kandongueiro eu perguntava a mim mesma no que me tinha metido desta vez. Já tinha dito a toda a gente que nunca andaria numa coisa daquelas.
A Hiace pára, e eu a acabar de rezar, abro os olhos, e vejo a carrinha vazia. Só o condutor lá dentro.
- Vocês vão lá atrás que eu vou à frente com o condutor.
Eu e a Sandra, a murmurarmos, entramos contrafeitas, aborrecidas pela obediência forçada. Enquanto ouvíamos a Paula a socializar com o condutor, caladas no banco de trás, para ele não perceber que eu era branca e a Sandra mulata, ou a despesa da viagem aumentaria ao nível do disparate.
A Viagem
Foi super interessante fazer aquela viagem.
O condutor gentil, talvez percebendo o nosso ar de pânico, foi a conduzir o mais calmamente que lhe permitia a rua sem alcatrão e esburacada.
Lembro-me de ir a olhar pela janela, a saborear a viagem e a observar tudo, sabendo que tão cedo, ou que nunca mais repetiria aquele momento, e desejando ao menos marcá-lo.
Afinal, tanto pavor e rapidamente a viagem chegou ao fim... da rua.
O condutor fez questão de nos oferecer o transporte e acenou-nos simpaticamente quando lhe desejamos uma boa viagem.
Essa Viagem Marcou-me
Nunca mais esqueci o medo do desconhecido. Mas a viagem mais complicada onde o terror de que essa viagem me levasse é aquela que há-de vir um dia e que a gente não sabe quando. Aquela que fez a minha avozinha, o meu avozinho, o meu pai e agora a Alexandra.
Essas viagens sim, dão medo. Não há mensagem religiosa que traga consolo. Não há trajecto que nos agrade, não há nada que acalme a alma.
Não quero entrar nessa Hiace, nem obedecer a ninguém, por mais confiança que mereça... mesmo sendo uma viagem gratuita e sem alguidares, será sempre desconfortável.
Na aflição que esse condutor desconhecido me trás, só me apetece... aprender a saborear cada paisagem, a sorrir como a Alexandra fazia, mesmo em sofrimento.
Não sei se sou capaz. Mas sei que quero ser.
Não sei se sou capaz. Mas sei que quero ser.
Se estava calor no início da rua...