segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Kandongueiro

- Meninas, vamos às compras?
A Paula de vez em quando tinha umas ideias assim. E lá me convenceu a mim e à Sandra a irmos à loja nova de Morro Bento. 

Só que, chegar até ao fim da rua era duro porque era longe e estava imenso calor. 

Ainda começámos o trajecto, mas rapidamente a Paula levantou o braço e depois explicou-nos:
- Vou pedir boleia a este Kandongueiro.

Fiquei aterrorizada. Quem não sabe, os kandongueiros são os doidos dos taxistas (ou do melhor que se parece), que transportam as pessoas em Luanda e na periferia, quase todas zungueiras, com tudo o que vendem: bananas, ananases, repolhos, animais vivos, cadernos e livros... bugigangas e os filhinhos delas, às costas.

Numa Hiace onde caberiam normalmente 9 pessoas, conseguem amontoar-se 15 ou 20, à pinha, junto com os alguidares carregados.

Mas não ficamos por aqui. Há perigos adicionais a juntar a toda esta panóplia: a velocidade da Hiace é a maior que seja possível ao condutor, e sinais de trânsito? É para esquecer. Não cumprem. É como se não existissem.

A maioria das carrinhas anda com os vidros partidos, especialmente o pára-brisas rachado, e todos amolgados, com buracos de balas, sem pára-choques e outros itens... enfim cada carro é um modelo original, com pelo menos 20 anos de idade, com bancos de cores diferentes, isto é, quando ainda tem estofos. 

A juntar a cor azul e branca, mensagens
no vidro traseiro do mais curioso que possa existir: de teor político, religioso ou anúncios de venda ou de aluguer de casas.

Por isso, enquanto a Paula acenava ao kandongueiro eu perguntava a mim mesma no que me tinha metido desta vez. Já tinha dito a toda a gente que nunca andaria numa coisa daquelas.

A Hiace pára, e eu a acabar de rezar, abro os olhos, e vejo a carrinha vazia. Só o condutor lá dentro.
- Vocês vão lá atrás que eu vou à frente com o condutor.
Eu e a Sandra, a murmurarmos, entramos contrafeitas, aborrecidas pela obediência forçada. Enquanto ouvíamos a Paula a socializar com o condutor, caladas no banco de trás, para ele não perceber que eu era branca e a Sandra mulata, ou a despesa da viagem aumentaria ao nível do disparate.

A Viagem
Foi super interessante fazer aquela viagem. 

O condutor gentil, talvez percebendo o nosso ar de pânico, foi a conduzir o mais calmamente que lhe permitia a rua sem alcatrão e esburacada. 

Lembro-me de ir a olhar pela janela, a saborear a viagem e a observar tudo, sabendo que tão cedo, ou que nunca mais repetiria aquele momento, e desejando ao menos marcá-lo.  

Afinal, tanto pavor e rapidamente a viagem chegou ao fim... da rua. 

O condutor fez questão de nos oferecer o transporte e acenou-nos simpaticamente quando lhe desejamos uma boa viagem.

Essa Viagem Marcou-me
Nunca mais esqueci o medo do desconhecido. Mas a viagem mais complicada onde o terror de que essa viagem me levasse é aquela que há-de vir um dia e que a gente não sabe quando. Aquela que fez a minha avozinha, o meu avozinho, o meu pai e agora a Alexandra. 

Essas viagens sim, dão medo. Não há mensagem religiosa que traga consolo. Não há trajecto que nos agrade, não há nada que acalme a alma. 

Não quero entrar nessa Hiace, nem obedecer a ninguém, por mais confiança que mereça... mesmo sendo uma viagem gratuita e sem alguidares, será sempre desconfortável.

Na aflição que esse condutor desconhecido me trás, só me apetece... aprender a saborear cada paisagem, a sorrir como a Alexandra fazia, mesmo em sofrimento.

Não sei se sou capaz. Mas sei que quero ser.

Se estava calor no início da rua...
está imenso frio no fim desta mensagem.

(Foto: terravermelhada.blogspot.com)
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