sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Trânsito

Enquanto escrevia as minhas aventuras de África o Ricardo desafiou-me a sair do sofá ‘queres vir à cidade?’ levantei-me num pulo, deve ser por isso que nos chamam ‘pulas’.
- ‘Vou só calçar-me’, avisei.
A São ao ver-me assim entusiasmada perguntou onde eu ia e ao meu sorriso ‘à cidade’ respondeu rapidamente ‘oh ninguém almoça hoje’.
Não entendi. Olhei para as 11:00 do relógio e disse ‘claro que almoçamos São. Nós já voltamos.’
Saí acelerada, não queria perder esta oportunidade de conhecer mais um pouco da cidade. Sentei-me e coloquei o cinto de segurança. O que se torna um momento engraçado. De que vale ter cinto de segurança quando para se conduzir em segurança o ideal é ter tudo menos uma condução segura?
Conduzir em Luanda é uma aventura. Eu fico cansada apenas de ver. A gente nunca sabe quando o discreto lugar de trás é suficientemente discreto para não receber um desses aventureiros candongueiros - os táxis da região – porta a dentro.
São os mais loucos, mas todos os carros de Luanda se locomovem numa empatia tal, que é malabarística. Muitas vezes faz mossa! Mas francamente ainda não percebi é como não faz mais mossas mais vezes.
O trânsito que se forma é o caos. É especialmente complicado às segundas e às sextas, o que é o caso de hoje.
É impressionante como as pessoas em Luanda não são egoístas no trânsito. Cabe sempre mais um carro, mais uma fila. Chegam a formar cinco filas de carros em estradas de três filas marcadas no chão. E as pessoas das vendas caminham corajosa e artisticamente entre eles.
De repente, alguém acha que uma fila bem formada vai demasiado ordenada e para complicar aquilo tudo, começa o processo de mudança de faixa que é algo um tanto radical. Eles literalmente atiram-se para cima dos outros carros, sem piscas, às vezes de uma só vez, atiram-se ou melhor mandam-se para cima do carro da faixa ao lado. E é muito simples. Num desses processos se não páras levas com um carro em cima.
A certa altura o Ricardo foi abastecer à bomba e quatro rapazes a venderem cd’s de repente cercam o carro. Ele só queria o cd de Paulo Flores que viu na mão de um deles. Mas todos eles são muito mais entendidos que o Ricardo nesta matéria e querem impingir-lhe Kizomba e mais uma catrefada de cd’s famosos, todos pirateados mas os melhores cd’s de Luanda está visto.
O Ricardo despistou toda a gente e lá conseguiu trazer o cd que queria ao preço que decidiu. Por pouco não era consumido pelo processo de venda. Ele e nós, já que todo o carro parecia poder ser engolido por tanta gente.
Não sei bem como, chegámos ao BESA. Ficamos a aguardar dentro do carro de portas trancadas e a conversar ao som do Paulo que cantava ‘ai Luanda’.
O trânsito até parados na rua é cansativo.
No regresso, como se não bastasse ser dia de mais trânsito, corta-se uma estrada e coloca-se um agente regulador de trânsito para complicar mais um pouco aquele quarteirão.
As motas aqui são como as vacas na Índia. São adoradas. Estão acima de qualquer Lei. Andam em sentido contrário e nem obedecem às forças policiais. Passam o polícia sinaleiro, que avisou que aquele sentido estava parado, e cumprimentam-no de capacete pousado no selim.
Nessa altura, olhei o relógio e compreendi a afirmação da São sobre o almoço. Eram 1:44 e na avenida principal os carros estavam todos parados. Ainda faltava muito para chegarmos a casa.
Valeu a valentia do Ricardo que já se locomove aqui com os seus três anos de experiência de condução em Luanda e conhece uns becos que, não sei como nem como não, vão dar a casa.
Devorei o almoço da São.