Íamos à praia de manhã mas ficámos sem
carro.
O José Carlos teve de ir trabalhar e o Pedro ainda só tem
autorização para conduzir o carro dele.
A Sandra e o Ricardo disseram que iam
connosco à praia e depois íamos directos à festa de aniversário no musseque em
Prenda, um bairro muito, muito pobre e degradado. Musseques são favelas. E eu aprendi que não devemos ir a um só porque não temos onde ir. É preciso estarmos preparados.
A Praia
O moço que pede dinheiro à saída do carro. O arame farpado a cercar a praia. O Resort
onde entramos para termos acesso à praia. Os chapéus-de-sol do restaurante caro
com os arames partidos. As palmeiras tristes, fechadas e feias porque estão
sujas.
No mar bóiam sacos de plástico, pedaços de madeira, latas de coca-cola e garrafas de água vazias no meio de uma enorme mancha de gordura. Não conseguimos entrar na água por estar tão suja. Fiquei imensamente triste.
A Festa de Aniversário
Primeiro choque: a barata do tamanho de uma noz, esmagada no chão, com o
líquido esbranquiçado em volta dela.
O cão com a pata partida que se arrasta
e faz ferida ensanguentada no interior do pulso.
O cheiro do esgoto, ao ar livre que
escorre desde a casa-de-banho improvisada no interior directamente para o
passeio na rua, passa pelo quintal.
O bebé de uma vizinha que chora de dor e ninguém lhe
liga absolutamente nenhuma.
Entrámos. Sempre simpáticos, ofereceram-nos o almoço, comi um pouco...
Comecei a lavar a loiça para dar uma ajuda. Três alguidares: 1 com água com detergente de lavar roupa à mão... sem esfregão... outro água para passar a louça já lavada e o 3º para por a enxugar...
A Sandra mandou comprar esfregões para a loiça. No entanto, mesmo ao lado do
esgoto e eu estava a desfalecer...
Ainda lavei imensa loiça mas a
determinada altura estava a agoniar-me.
Foi a minha primeira desistência. Pedi para virmos embora.
Aprendi que:
- tenho os meus limites e tenho de os respeitar;
- para viver em África tenho de ter o mínimo de condições.
Pois...
ResponderEliminarEstávamos numa casa de classe média, paredes rebocadas, pintadas, um professor, militante do MPLA,uma educadora de infância.
Imagina a vida nas cubatas...
Todos temos os nossos limites, mas nem todos sabem quais são.
Tudo é relativo, aqui usa-se muito a expressão:
"Isto aqui não é o Congo!"